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Entretenimento

Lenine expande a teia de afetos do álbum ‘Eita’ em show autoral feito na pressão da identidade sonora do artista

junho 2, 2026Nenhum comentário0 Visitas

Lenine transita entre a delicadeza do afeto e a firmeza da ideologia na cena enérgica no show ‘Eita’
Raíssa Corrêa / Divulgação Produção Lenine
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Eita
Artista: Lenine
Data e local: 30 de maio de 2026 no Tokyo Marine Hall (São Paulo, SP)
Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2
♬ SÃO PAULO – Se Lenine entrelaçou os fios do afeto na teia do álbum e do filme “Eita” (2025), o artista expande essa teia amorosa no show homônimo que chegou à cidade de São Paulo (SP) no sábado, 30 de maio, após ter estreado em Fortaleza (CE).
Sensibilizado pela receptividade calorosa do público, carinho especialmente significativo pelo fato de a turnê do show “Eita” marcar a volta do artista à cena e à vida após período cinzento em que o cantor cogitou nunca mais pisar em palco, Lenine parecia à flor da pele e externou a emoção em falas dirigidas à plateia. Mas segurou a emoção para que o show fosse regido pela música.
Aberto com o canto em off de “Aos domingos” (2025), ouvido enquanto os músicos Bruno Giorgi (baixo), Gabriel Ventura (guitarra), Henrique Albino (sopros), Negadeza (percussão) e Pantico Rocha (bateria) se posicionavam no palco, o roteiro seguiu inteiramente autoral, enfatizando a marca e a identidade sonoras de um artista em que o modo como uma música é arranjada e tocada parece ser tão ou mais importante do que a música em si.
Já na primeira música com Lenine no palco, a canção “Confia em mim” (Lenine e Dudu Falcão, 2025), o violão de cadência percussiva se insinuou imponente. “Eu sou meu guia”, reforçou Lenine no título da música seguinte, parceria do artista com Bráulio Tavares apresentada no álbum “Na pressão” (1999).
Com toque psicodélico, o arranjo de “Eu sou meu guia” mostrou que o diretor musical do show “Eita”, o baixista da banda Bruno Giorgi, orquestrou um som… na pressão, turbinando músicas como “O último pôr do sol” (Lenine e Lula Queiroga, 1993), cuja onda quebrou na praia de “Miragem do porto” (Lenine e Bráulio Tavares, 1992), a música seguinte, apresentada ao Brasil na voz de Elba Ramalho, cantora que abriu janelas para o cancioneiro de Lenine antes de o artista ganhar o merecido lugar ao sol.
Lenine é um Leão do norte que veio ao mundo no Recife (PE) há 57 anos. Sem ranços tradicionalistas, a origem pernambucana do artista ressoou, por exemplo, no canto da “Ciranda praieira” (Lenine e Paulo César Pinheiro, 2008), no baque do maracatu ativista “O rumo do fogo” (Lenine e Lula Queiroga, 2025) – com Lenine excepcionalmente nas maracas – e na flauta evocativa dos pífanos de Caruaru soprada por Henrique Albino na canção “Meu xamego” (2025), de romantismo um pouco abafado pelo som.
À medida em que o cantor foi seguindo o roteiro de “Eita” com músicas como “Todas elas juntas num só ser” (Lenine e Carlos Rennó, 2004) – número de peso e ambiência rocker – e “Escrúpulo” (Lenine e Lula Queiroga, 1992), a marca de Lenine foi ficando cada vez mais soberana no show. O que nem causou surpresa, pois todos os discos e shows de Lenine sempre foram calcados na forte identidade autoral da música do artista, geralmente sem espaço para abordagens de composições alheias. No máximo, houve a habitual citação de “Chiclete com banana” (Gordurinha e Almira Castilho, 1958) em “Jack soul brasileiro” (1999) para saudar Jackson do Pandeiro (1919 – 1982), um dos reis do ritmo do Brasil.
No set de voz e violão, caracterizado por Lenine como “momento de intimidade”, ficou evidenciado que a lírica canção “Foto de família” (Lenine e João Cavalcanti, 2025) teve a grandeza atenuada neste bloco reservado às baladas como “Paciência” (Lenine e Dudu Falcão, 1999), “É o que me interessa” (Lenine e Dudu Falcão, 2008) – um dos pontos altos sob o prisma da interpretação – e “Leve e suave” (2018). Pela relevância no painel de afetos do álbum “Eita”, “Foto de família” merecia tratamento mais diferenciado no show para que a beleza da canção ficasse mais exposta.
Entre lembranças como “Ecos do ão” (Lenine e Carlos Rennó, 2004) e o já esperado caboclinho “Leão do Norte” (Lenine e Paulo César Pinheiro, 1993) e as 11 músicas do álbum “Eita”, cujo repertório foi inteiramente incluído em roteiro que apresentou a toada “Malassombro” (Lenine e Siba, 2025), o boi-bumbá “Boi Xambá” (2025) e a imperativa “Deita e dorme” (Lenine e Arnaldo Antunes, 2025), o artista foi reforçando o discurso político através do canto em sequência de “Envergo, mas não quebro” (Lenine e Carlos Rennó, 2011), “A balada do cachorro louco (Fere rente)” (Lenine, Lula Queiroga e Chico Neves, 1997), “O dia em que faremos contato” (Lenine e Bráulio Tavares, 1997), “Rosebud (O verbo e a verba)” (Lenine e Lula Queiroga, 2001) e “Rua da passagem (Trânsito)” (Lenine e Arnaldo Antunes, 1999).
A tomada de posição em defesa da democracia foi enfatizada, com humor, na apresentação dos músicos da banda, uns localizados no palco à direita do cantor e outros à esquerda, mas todos alinhados com a mesma posição política. E assim, entre a delicadeza do afeto e a firmeza da ideologia do artista, o show “Eita” caminhou para o fim sem perder o fôlego.
No bis, aberto com o canto de “Beira” (2025) em número climático feito somente com a voz de Lenine e a guitarra de Gabriel Ventura (parceiro do artista na composição), “O homem dos olhos de raio x” (2000) precedeu o hit “Hoje eu quero sair só” (Lenine, Mu Chebabi e Caxa Aragão, 1995).
Sempre pedida pelo público, “Hoje eu quero sair só” é música lançada por Daúde dois anos após Lenine chamar atenção com o álbum “Olho de peixe” (1993) – assinado com o percussionista Marcos Suzano – e dois anos antes de o cantor sair solo com “O dia em que faremos contato” (1997), álbum que começou a delinear a marca sonora autoral que Lenine, hoje já consagrado, evidencia no show “Eita” enquanto expande no palco a teia de afetos do disco e filme de 2025.
Lenine encadeia 31 músicas no roteiro do show ‘Eita’, na apresentação que encheu o Tokyo Marine Hall em São Paulo (SP) no sábado, 30 de maio
Malu Freire / Divulgação Produção Lenine
♪ Eis as 31 músicas do roteiro seguido por Lenine em 30 de maio de 2026 na estreia do show “Eita” em São Paulo (SP) na casa Tokyo Marine Hall:
1. “Aos domingos” (Lenine 2025) – canto em off
2. “Confia em mim” (Lenine e Dudu Falcão, 2025)
3. “Eu sou meu guia” (Lenine e Bráulio Tavares, 1999)
4. “O último pôr do sol” (Lenine e Lula Queiroga, 1993
5. “Miragem do porto” (Lenine e Bráulio Tavares, 1992)
6. “Meu xamego” (Lenine, 2025)
7. “Todas elas juntas num só ser” (Lenine e Carlos Rennó, 2004)
8. “Escrúpulo” (Lenine e Lula Queiroga, 1992)
9. “Ciranda praieira” (Lenine e Paulo César Pinheiro, 2008)
10. “O rumo do fogo” (Lenine e Lula Queiroga, 2025)
11. “Foto de família” (Lenine e João Cavalcanti, 2025)
12. “É o que me interessa” (Lenine e Dudu Falcão, 2008)
13. “Leve e suave” (Lenine, 2018)
14. “Paciência” (Lenine e Dudu Falcão, 1999)
15. “Ecos do ão” (Lenine e Carlos Rennó, 2004)
16. “Malassombro” (Lenine e Siba, 2025)
17. “Boi Xambá” (Lenine, 2025)
18. “Envergo, mas não quebro” (Lenine e Carlos Rennó, 2011)
19. “A balada do cachorro louco (Fere rente)” (Lenine, Lula Queiroga e Chico Neves, 1997)
20. “Deita e dorme” (Lenine e Arnaldo Antunes, 2025)
21. “O dia em que faremos contato” (Lenine e Bráulio Tavares, 1997)
22. “Rosebud (O verbo e a verba)” (Lenine e Lula Queiroga, 2001)
23. “Rua da passagem (Trânsito)” (Lenine e Arnaldo Antunes, 1999)
24. “Jack soul brasileiro” – com citação de “Chiclete com banana” (Gordurinha e Almira Castilho, 1958)
25. “Do it” (Lenine e Ivan Santos, 2004)
26. “Eita” (Lenine, 2025)
27. “Motivo” (Lenine e Carlos Posada, 2025)
28. “Leão do Norte” (Lenine e Paulo César Pinheiro, 1993)
Bis:
29. “Beira” (Lenine e Gabriel Ventura, 2025)
30. “O homem dos olhos de raio x” (Lenine, 2000)
31. “Hoje eu quero sair só” (Lenine, Mu Chebabi e Caxa Aragão, 1995)
♫ O crítico e colunista do g1 viajou a São Paulo (SP) a convite da produção de Lenine.

Fonte: G1 Entretenimento

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